"Os meus sentimentos deviam guardá-los, ainda lhe podiam fazer falta, e a mim não me serviam de nada. Devia tê-lo aconselhado a guardar os sentimentos, nunca sabemos quando precisamos dos sentimentos. Da latinha de fermento que está há anos na despensa, da camisola de lã que não é vestida há mais de cinco Invernos, nunca se sabe quando precisamos de coisas mesmo se nunca as utilizamos. Não fosse essa incerteza e punha um anúncio no jornal, vendem-se sentimentos, estado impecável, como novos, oportunidade única, motivo mudança de vida, bom preço."
" De duas ou maisdoressimultâneas, a nossa atençãoescolhe uma e quase esquece as outras. Na ruína do nosso tempo, vê se escolhes o maisimportante dela. Evitarás assim oridículo de chorar a perdade um alfinete numa casaque te ardeu. E a História olhar-te-á comsimpatia- talvez vá mesmo para a cama contigo."
Sair dos dias. Não dormir. Não falar com ninguém. Ficar de fora do lá de fora. Ocupar o coração. À força. Ser como ele.
É muito bom e faz muito bem.
Espera-se um bocadinho e, pouco a pouco, ele começa a correr para dentro de nós, aflito por atenção. Traz as coisas que adiámos, em que não reparámos, que não tivemos tempo de cuidar. E primeiro vêm as mágoas. A felicidade que recusámos. Sem saber. Sempre sem saber. A tristeza de que fugimos. Voltam.
É muito bom e faz muito bem.
Sair de nós. Cair nos outros. Não escrever. Ler. Não pensar. Lembrar. Os amigos quietos. O murmúrio do riso que riram. A família parada. O colo onde cabe a cabeça. O amor adormecido. Estas coisas acordam. E sossega saber que nós não somos nada sem eles. E mesmo com eles, quase nada. Escravos de carinhos somos nós, seguindo atrás, de braços abertos, numa fila sem fim.
É muito bom e faz muito bem.
Sair dos trabalhos, do dinheiro, das palavras que nada querem ou conseguem dizer. Fazer gazeta. Faltar. Desobedecer. É um trabalho também. Não ir. Não responder. Não entregar. É cumprir também. Desmergulhar. Desfazer. Desacontecer. São tarefas também. Ainda mais difíceis, talvez.
É muito bom e faz muito bem.
Sair da ordem. Cair na doçura do acaso. Trocar de caos. Descer. Vestir a mesma roupa. Não fazer a barba. Beber. Fumar. Sem pausa. Sem razão. Ceder. Emergir. Abandalhar. Fazer o que não se está a fazer. Esticar a corda. Não atender. Desarrumar os livros. Passear pela casa como se fosse uma cidade destruída. Estragar.
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vontade. Cair na estupidez. Não descansar. Ver televisão numa língua que não se compreenda. Forçar. Esquecer. Fazer o que não apetece fazer. Contrariar. Confundir. Comer atum de conserva com uma colher. Pôr o despertador para acordar mal se comece a adormecer. Dizer disparates em voz alta. Todos agora. Virar o bico ao prego. Arrepiar. Arrepender.
É muito bom e faz muito bem.
Sair do corpo. Cair na alma. De chapão. Sem ver nada à frente. Receber os mistérios. Sem cerimónias. Sem compreender. Ser absorvido. Subjugado. E agradecer. Perder o norte, o fio, os sentidos. E gostar. Divertir. Desprender. Chafurdar na lama. Acriançar. Rir. Começar a chorar. Ser levado, enlevado, enganado, desprotegido, confuso, cruel. Desviado.
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.
É muito bom e faz muito bem.
É tão bom e faz tanto bem que, às vezes, cada vez mais, não apetece regressar. Tanto que só nos resta levantarmo-nos de onde caímos e, deixando-nos conduzir por tudo o que nos tolheu os passos desde o dia em que começamos a errar, na contramão das nossas almas, só nos resta procurar um sítio onde a nossa ida não se reconhece, não se aceita, não faz sentido, e entrar.
Entrar aqui. Daqui de onde nunca se sai. E ficar.
Miguel Esteves Cardoso
março 12, 2009
ontem chorei. por tudo que fomos. por tudo o que não conseguimos ser. por tudo que se perdeu. por termos nos perdido. pelo que queríamos que fosse e não foi. pela renúncia. por valores não dados. por erros acometidos. acertos não comemorados. palavras dissipadas. chorei pela guerra quotidiana. pelas tentativas de sobrevivência. pelos apelos de paz não atendidos. pelo amor derramado. pelo amor ofendido e aprisionado. pelo amor perdido. pelo amor. pelo respeito empoeirado em cima da estante. pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. pelos sonhos desafinados. estremecidos. adiados. pela culpa. toda a culpa. minha. sua. nossa culpa. por tudo que foi. e foi. e voou. e não volta mais pois que hoje é já outro dia. chorei. eu chorei. apronto agora os meus pés na estrada. ponho-me a caminhar sob sol e vento. eles secam as lágrimas.vou ali ser feliz e já volto.
Caio Fernando Abreu
março 10, 2009
Gostavadeacordartodos os diasassim:cairsem almofada emcima da realidade. Com acertezade que seguir em frenteé oúnicocaminho. Semme perderem mundos e noites quejánão me pertencem.
Alice Lemarin
março 09, 2009
Faltou-meviveronde estava mas ensinei-me a não estar completamente ondeestive e a cidadedormindoem mim não me viu entrar na cidade que em mim despertava
Houve lágrimasquenão matei porque me fiz degestos que não prometi e na noite abrindo-se como toalha generosa servi-me do meudesassossego e assim meacrescentei aos quesendo toda a gente nãoforamnuncacomo toda a gente.
Amo-te. Um amor que vem de dentro, forte, puro verdadeiro. Um amor de fazer corar os mais cépticos, um amor de fazer corar aqueles que dizem " amo-te " em vão. Porque o " amo-te " tem de ser sentido em cada milímetro do ser. Tem de começar no coração, passar por todos os nervos e artérias e veias e acabar num sussurro. Um sussurro dito pela boca que espera um beijo. Um beijo de " amo-te ". Amo-te sem vergonhas, sem complexos, sem medos. Amo-te incondicionalmente, apaixonadamente, fisicamente, carnalmente, silenciosamente. E é neste silêncio que guardo o meu amor. O maior e o mais desejado de sempre. Amote assim. Sem espaços nem tracinhos. Totalmente.
fevereiro 28, 2009
Tragodentrodo meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos oslugares onde estive, Todos os portosa que cheguei, Todas aspaisagensque vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos,sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que euquero.
ps- Hoje em conversa com um amigo de longa data, recordámos este grupo. E esta música em particular, que tanto nos disse há muitos anos e que, concluímos, passados estes anos todos, continua a tanto nos dizer...
The contrast of white on white. And in between the moon and you The angels get a better view Of the crumbling difference between wrong and right. I walk in the air between the rain Through myself and back again Where? I don't know Maria says she's dying Through the door I hear her crying Why? I don't know Round here we always stand up straight Round here something radiates Maria came from Nashville with a suitcase in her hand She said she'd like to meet a boy who looks like Elvis And she walks along the edge of where the ocean meets the land Just like she's walking on a wire in the circus She parks her car outside of my house Takes her clothes off Says she's close to understanding Jesus She knows she's more than just a little misunderstood She has trouble acting normal when she's nervous Round here we're carving out our names Round here we all look the same Round here we talk just like lions But we sacrifice like lambs Round here she's slipping through my hands Sleeping children better run like the wind out of the lightning dream Mama's little baby better get herself in out of the lightning She says "it's only in my head" She says "Shhh I know it's only in my head" But the girl on the car in the parking lot Says "Man you should try to take a shot Can't you see my walls are crumbling?" Then she looks up at the building Says she's thinking of jumping She says she's tired of life She must be tired of something Round here she's always on my mind Round here hey man got lots of time Round here we're never sent to bed early and nobody makes us wait Round here we stay up very, very, very, very late I can't see nothing.. nothing round here Will you catch if I'm falling Will you catch me if I'm falling Will you catch me cause I'm falling down on you I said I'm under the gun around here I'm innocent I'm under the gun around here And I can't see nothing Nothing round here.
ps - Musiquinha maravilha que me faz ter muitas saudades das férias, em especial, do Porto... Snif, snif...
fevereiro 20, 2009
Sinto que hoje novamente embarco Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias De expectativa e de segredos Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando A voz das coisas que eu sei amar.
Vêm sempre do lado esquerdo. As dores, mesmo quando são fingidas, nunca cicatrizame é do ladoesquerdoque se fixam.
Albano Martins
janeiro 26, 2009
Aconchego-me ao casaco. As tuas mãosapertam-me os ombros. O teu hálitoquente, sinto-o no meu pescoço. Aperto o casaco. As tuas mãos abraçam-me o peito. O teu sussurro inaudível respira no meu ouvido. Fecho os olhos e sinto-te. Aqui. Ainda. Sempre.
janeiro 24, 2009
O tormento de te amar é uma asa presa que me detém num cubo de medo; medo de que o amor eterno exista, nãocaiba nas nossas vidas tão breves ou não lhes resista.
Ana Rita Calmeiro
janeiro 20, 2009
guarda-me adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais sobre esta terra de ninguém onde morro por qualquer coisa que me fale de ti
há noites assim em que o silêncio se transforma ao de leve numa lâmina que minuciosamente rasga o linho onde ficou esquecido o corpo que habitámos em provisórias madrugadas felizes
depois é só abrir os braços e acreditar que ainda faltam muitas horas para a partida e que à-toa pelos corredores ainda escorre uma razão primeira a trazer-me de volta
e eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito
e de novo entre nós aquele choro de quem não teve tempo de preparar a despedida com as palavras certas porque as palavras certas estavam todas em histórias erradas que outros escreveram em lugares nublados que nem vale a pena tentar recompor
muito ao longe uma voz desgarrada estabelece o fim do verão
e eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito
Alice Vieira
janeiro 17, 2009
Às vezes, pequenosgrandesterremotos ocorrem do ladoesquerdodo meupeito. Fora, não se dão conta os desatentos. Entre a aorta e a omoplata rolam alquebradossentimentos. Entre as vértebras e as costelas há váriosesmagamentos. Os mais íntimos já me viramremexendoescombros. Em mim há algo imóvel e soterrado em permanente assombro.
E às vezes penso ébomque assim seja para eu aprendera estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quasesufoco da tua presença. Ouço-tedizer o meu nome e eu corroao teuencontro e digo-te vai-te,vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tãoinfeliz.
E digo-tenão vás. Fica. Para sempre.
Há em mim umalutaentre odesejode que teesqueça e o deendoidecer contigo.
Virgílio Ferreira
janeiro 06, 2009
vou buscar-te ao fim da tarde, porque a noite só escurece contigo ao meu lado, porque a noite aprende por ti o caminho aberto das estrelas vou buscar-te ao fim da tarde, e verás como preparei a casa, como escolhi a música, como, enfim, espalhei os objectos mais impressionados contigo, os que ganharam vida por se interporem na espessura estreita que vai do meu ao teu coração e não mais te devolvo, correndo todos os riscos de não amanhecer nunca numa loucura propositada por ti não mais te devolvo, ocuparás o mundo debaixo e sobre mim, e não haverá mais mundo sem que seja assim.
Há meses que vivo rodeada por uma substâncianegraepegajosa queinvadiua minha casa. As paredes, o chão, as janelas e os móveis, a comida, os livros e a roupa, o teclado do computador, as plantas, o telefone… Está tudoimpregnado com esta tez escura, a mesma querespiro e que memata pouco a pouco. Dizem que os venturosos e os néscios chamam melancoliaa esta porcaria que apodreceo coração easfixiaa alma.
Queria ter coragem Para falar deste segredo Queria poder declarar ao mundo Este amor Não me faltavontade Não me faltadesejo Você é minha vontade Meu maior desejo Queria poder gritar Esta loucura saudável Que é estar emteus braços Perdido pelos teus beijos Sentindo-me loucode desejo Queria recitar versos Cantaraos quatros ventos As palavras que brotam Você é a inspiração Minha motivação Queria falar dos sonhos Dizer os meussecretosdesejos Que é largar tudo Paravivercom você Esteinconfesso desejo.
Carlos Drummond de Andrade
dezembro 30, 2008
Não me interessa saber o que fazes para ganhar a vida. Quero saber o que desejas ardentemente, se ousas sonhar em atender aquilo pelo qual o teu coração anseia. Não me interessa saber a tua idade. Quero saber se arriscarás parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a tua lua. Quero saber se tocaste o âmago da tua dor, se as traições da vida te abriram ou se te tornaste murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se podes suportar a dor, minha ou tua; sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se podes aceitar alegria, minha ou tua, se podes dançar com abandono e deixar que o êxtase te domine até às pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizeres para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que contas é verdade. Quero saber se consegues desapontar outra pessoa para ser autêntico contigo mesmo, se podes suportar a acusação de traição e não traíres a tua alma.
Quero saber se podes ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se podes buscar a origem da tua vida na presença de Deus, quero saber se podes viver com o fracasso, teu e meu e ainda, à margem de um lago, gritar para a lua prateada: Posso! Não me interessa onde moras ou quanto dinheiro tens. Quero saber se podes levantar-te após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até aos ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem és e como vieste parar aqui. Quero saber se ficarás comigo no meio do incêndio e não te acovardarás. Não me interessa saber onde, o quê, ou com quem estudaste. Quero saber o que te sustenta a partir de dentro, quando tudo o mais se desmorona. Quero saber se consegues ficar sozinho contigo mesmo e se, realmente, gostas da companhia que tens nos momentos vazios.
Jean Houston
dezembro 27, 2008
Eu acreditei que podia amaro teu corpo, o teu modo de insinuar o coração nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos mas crescias fora de alcance no teu próprio pensamento. Uma distância que só serviria aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas. Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio em que me mantinhas era mais urgente que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo mas eu perdia sempre alguma coisa quando te ganhava. Às vezes era só a minha vontade, outras vezes era toda a frase do meu nome.
Deixei de te ver. Não há luz sequer. A noite cai. Como se fosse uma pessoa, a noite cai. Como se não fosses tu. Como se tivesses de partir e já fosses atrasado e fosses a correr e depois te esquecesses de voltar. E, mesmo querendo, já não soubesses o caminho de volta, mesmo querendo, não pudesses por já não o haver, o caminho de volta até mim. Sem maldade, puro esquecimento, sim, posso acreditar que lá fora facilmente encontres o que quiseres e isso te dê prazer. Aqui não, aqui, junto a mim, é mais difícil, eu sei. Aqui não se deixa agarrar um só instante. Derrete-se na boca,a vida, que está a passar. Num instante. Tu sabes o que é, e é bom que saibas como é porque mesmo se mo pedisses, de todas as maneiras, não to podia dizer. O que podes, isso sim, do que mais precisas, isso sim, é de adormecer e descansar. Assim não podes continuar. Já reparaste como estás? Metes dó. Eu sei, a culpa não é tua,ficaste assim sem querer, o exacto contrário do que querias, eu sei,disseste-mo demasiadas vezes. A vida que nos deram não é nossa? Mas podias pelo menos tentar que passe por ti. E por mim,se não for pedir demais. Não sei se queres compreender mas não vou repetir,nem uma palavra. Não vale a pena, ficava logo tudo igualzinho à primeira vez. O que tu podes é abrir os olhos e ver.