outubro 27, 2007

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.
Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei
para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.
Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
António Gedeão

outubro 26, 2007


"Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti, como se os teus passos estivessem aqui ao pé de mim e eu pudesse seguir-te e falar-te e dizer-te quanto te amo e como te procuro, no meio de uma destas ruas em que te vejo, zangado de saudade, no céu claro, no dia frio. Devolve-me a minha vida e o meu tempo. Diz qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem parar por ti."



Miguel Esteves Cardoso

outubro 25, 2007


"E nunca me aproximei tanto do teu corpo. O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade enorme de me desmorenar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos! Também não era foder, fornicar, copular - essas palavras violentas com que tentam rebentar o amor. Como se fosse possível. Apenas queria oferecer-te o meu corpo para o absorveres no teu! "
Inês Pedrosa in " Fazes-me falta"

outubro 23, 2007

Escolho os meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Têm que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não me interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo loucos.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho os meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também as suas maiores alegrias.
Amigos que não riem juntos, não sabem sofrer juntos.
Meus amigos são todos assim: metade parvoíce, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois vendo-os loucos e santos, “parvos” e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril
Autor desconhecido

outubro 20, 2007

Custa

Custa muito ver o rosto crispado
desfeito, lágrima contida convulsa,
na ponta da palavra nova e agreste
desespero de ver-se além do outro.
Custa julgar e mais julgar-se
ultrapassar o fosso da diferença
cair em si, destapar a fossa
das palavras não ditas, ocultas.
Não acusar as mágoas custa,
mas deixá-las cair mais além
morder o desespero do não feito
e guardá-lo, só para si, é muito.
Eduardo Graça

outubro 19, 2007



"Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto
como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos
tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei
eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui
perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares
procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui"
In " Tu estás aqui" Ruy Belo

outubro 16, 2007

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar.
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito.
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
Vinicius de Moraes

outubro 11, 2007


Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lemtamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de despero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim.


José Luis Peixoto

outubro 06, 2007

Caaaaaarrrriiieeeeee!



Minha nossa Sra!O que eu gostava deste grupo quando era chavalinha...E tinha posters que tirava da Bravo, que na altura era só em alemão mas isso não interessava nada. O importante era ter a cara linda do vocalista..Ou pelo menos na altura eu achava que era giríssimo.Agora...lol O cabelo mais armado que o da Lili Caneças, o fiozinho ao pescoço, o casaquinho( que bom gosto na escolha..; p)Nem sei que diga..Do que uma pessoa gosta quando é canuca. Mas continuo a saber a música de cor e tenho orgulho nisso! Mai nada...

outubro 05, 2007



Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço

em que de penetrar-te me senti perdido

no ter-te para sempre

-Quanto de ter-te me possui em tudo

o que eu deseje ou veja não pensando em ti

no abraço a que me entrego

-Quanto de entrega é como um rosto aberto,

sem olhos e sem boca,

só expressão doridade quem é como a morte

-Quanto de morte recebi de ti,

na pura perda de possuir-te em vão

de amor que nos traiu

-Quanta traição existe em possuir-se a gente

sem conhecer que o corpo não conhece

mais que o sentir-se noutro

-Quanto sentir-te e me sentires não foi

senão o encontro eterno que nenhuma imagem

jamais separará

-Quanto de separados viveremos noutros

esse momento que nos mata para

quem não nos seja e só

-Quanto de solidão é este estar-se em tudo

como na auséncia indestrutível que

nos faz ser um no outro

-Quanto de ser-se ou se não ser o outro

é para sempre a única certezaque nos confina em vida

-Quanto de vida consumimos pura

no horror e na miséria de, possuindo, sermos

a terra que outros pisam

-Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,

recebo gratamente como se recebe

não a morte ou a vida,

mas a descoberta

de nada haver onde um de nós não esteja.
Jorge de Sena

outubro 01, 2007

Tocas um corpo, sentes-Ihe o repetido tremor

sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue.

Observas-lhe o lânguido amolecimento,

as suas sombras corporais, o seu desvelado esplendor.

Não há palavras. Tocas um corpo; um mundo

enche agora as tuas mãos empurra o seu destino.

Estira-se o tempo nos pulmões

silva como um chicote rente aos lábios.As horas, o instante, detêm-se,

extrais aí a tua pequena parcela de eternidade.Antes foram os nomes e as datas.

a história tão clara e lúcida de dois rostos distantes.Depois aquilo a que chamas amor,

talvez se transforme em promessa arrancada,muro erguido que pretende encerrar

aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.Não importa, agora nada importa.

Tocas um corpo, nele te fundes,apalpas a vida, real, comum. Já não estás só.

Juan Luis Panero

setembro 27, 2007


"Nunca tiveste aquela sensação de amares alguém, de amares alguém muito, e de as circunstâncias em que a tua vida acontece destruírem a possibilidade desse amor, apesar de ele continuar a existir dentro de ti?"


João Tordo in Hotel Memória

setembro 24, 2007

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice

setembro 23, 2007



-Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem não escolhi.


-Na treva que as mãos repelem

os corpos crescem trementes.

Ao toque leve e ligeiro

O corpo torna-se inteiro,

Todos os outros ausentes.


Os olhos no vago

Das luzes brandas e alheias;

Joelhos, dentes e dedos

Se cravam por sobre os medos...

Meu corpo, que mais receias?


-Receio quem não escolhi,

quem pela escolha afastei.

De longe, os corpos que vi

Me lembram quantos perdi

Por este outro que terei.


Jorge de Sena

setembro 21, 2007

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada
lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Hélder

setembro 20, 2007

Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.
Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces
-o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não fazs
enão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.
Maria do Rosário Pedreira

setembro 19, 2007

Ai oh pah..Tão chavalinhos..Mais uma daquelas músicas de sempre..

setembro 18, 2007

Aqueles que passam por nós,
não vão sós,
não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
levam um pouco de nós.
Antoine de Saint-Exupery

setembro 17, 2007





Como não consigo colocar isto noutro sítio (sou um bocado loura..; p) aqui fica o meu coisinho de contar ; p

setembro 14, 2007

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém(eu provavelmente)
nunca tivesse existido.
Manuel António Pina

setembro 07, 2007

Metade




Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu. E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei.



Miguel Esteves Cardoso

setembro 05, 2007



Já cá tinha posto a letra. Na altura em que ainda não sabia pôr videos no meu bloguito..Ok, gozem à vontade ; p Aqui fica uma das músicas mais marcantes da minha vida..

setembro 04, 2007

Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito,
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E põem,
de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.

Sebastião Alba

setembro 03, 2007

Lua adversa


Tenho fases, como a lua

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua...

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém(tenho fases como a lua...)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua...

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu...

Cecília Meireles

setembro 02, 2007


"Ontem à noite eu chorei. Chorei porque o processo do meu crescimento foi doloroso. Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque os meus olhos estavam abertos para a realidade (...).Chorei porque não podia mais acreditar, e adoro acreditar.Ainda consigo amar apaixonadamente (...). Isto significa que amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela."



Anaïs Nin

setembro 01, 2007

agosto 31, 2007

Navega


Navega,
descobre tesouros,
Mas não os tires do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admira a Lua,
sonha com ela,
Mas não queiras trazê-la para Terra.
Goza a luz do Sol,
deixa-te acariciar por ele.
O calor é para todos.
Sonha com as estrelas,
apenas sonha,
elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento,
ele precisa correr por toda a parte,
Ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
As lágrimas?
Não as seques,
elas precisam correr na minha,
Na tua,
em todas as faces.
O sorriso!
Esse deves segurar,
não o deixes ir embora,
agarra-o!
Quem amas?
Guarda dentro de um guarda jóias,
tranca, perde a chave!
Quem amas é a maior jóia que possuis,
a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira
Conserva a vontade de viver,
não se chega a parte alguma sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares
e as portas também.
Persegue o sonho,
mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor,
cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias,
deixa-te levar pelas tuas vontades,
Mas não enlouqueças por elas.
Procura!
Procura sempre o fim de uma história,
seja ela qual for.
Dá um sorriso
àqueles que esqueceram como isso se faz.
Olha para o lado,
há alguém que precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé,
não a percas nunca.
Mergulha de cabeça
nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo,
só sairás dessa agonia se
conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos,
mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te,
volta atrás,
pede perdão!
Não te acostumes
com o que não te faz feliz,
Revolta-te quando julgares necessário.
Enche o teu coração de esperança,
mas não deixes que ele se afogue nela.
Se achares que precisas de voltar atrás,
volta!
Se perceberes que precisas seguir,
segue!
Se estiver tudo errado,
começa novamente.
Se estiver tudo certo,
continua.
Se sentires saudades,
mata-as.
Se perderes um amor,
não te percas!
Se o achares,
segura-o!
Fernando Pessoa

agosto 30, 2007


Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor.
Não é o coração
mas as mãos
sem corpo, vazias.
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desequilíbrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo.
Ana Marques Gastão

Dance me till the end of love




Há tanto tempo que não ouvia isto...Um grande clássico da minha cada vez mais longínqua adolescência ; p

agosto 28, 2007

"(...) foi então que dei por mim a existir para lá da tua morte, como se asfixiasse. mas o passado não é senão um sonho. uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.não vale a pena estar triste.todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar."

Al Berto

agosto 25, 2007



Andar?! Não me custa nada!...


Mas estes passos que dou


Vão alongando uma estrada


Que nem sequer começou.





Andar na noite?!Que importa?...


Não tenho medo da noite


Nem medo de me cansar:


Mas na estrada em que vou,


Passo sempre à mesma porta...





E começo a acreditar


No mau feitiço da estrada:


Que se ela não começou


Também não foi acabada!





Só sei que,neste destino,


Vou atrás do que não sei...


E já me sinto cansada


Dos passos que nunca dei.





Natália Correia

agosto 22, 2007

Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti, olha para o fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti.

José Luís Peixoto

agosto 20, 2007

Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer.
Caetano Veloso

agosto 19, 2007









Não conheço os lugares onde não estás.
Albano Martins

agosto 18, 2007

Eu sei



Eu sei que há quem a ache pirosa, ranhosa, lamechas e tudo e tudo e tudo..Eu também acho..Mas gosto! Que hei-de fazer... ; p

agosto 17, 2007

Tenho tanto sentimento


Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço,
ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa

agosto 14, 2007

Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces


Estendendo-me os braços, e seguros


De que seria bom que eu os ouvisse


Quando me dizem: "vem por aqui!"


Eu olho-os com olhos lassos,


(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)


E cruzo os braços,


E nunca vou por ali...


A minha glória é esta: Criar desumanidade!


Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade


Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí!


Só vou por onde


Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde


Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,


Redemoinhar aos ventos,


Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,


A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi


Só para desflorar florestas virgens,


E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!


O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós


Que me dareis impulsos,


ferramentas e coragem


Para eu derrubar os meus obstáculos?...


Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,


E vós amais o que é fácil!


Eu amo o Longe e a Miragem,


Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide!


Tendes estradas,


Tendes jardins, tendes canteiros,


Tendes pátria, tendes tectos,


E tendes regras,


e tratados, e filósofos, e sábios...


Eu tenho a minha Loucura !


Levanto-a, como um facho,


a arder na noite escura,


E sinto espuma, e sangue,


e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam,


mais ninguém.


Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;


Mas eu, que nunca principio nem acabo,


Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!


Ninguém me peça definições!


Ninguém me diga: "vem por aqui"!


A minha vida é um vendaval que se soltou.


É uma onda que se alevantou.


É um átomo a mais que se animou...


Não sei por onde vou,


Não sei para onde vou


- Sei que não vou por aí!



José Régio

agosto 06, 2007

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca,
tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e
invento exclamações alegres,
porque a ausência,
essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade

agosto 01, 2007

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
Ary dos Santos

julho 31, 2007


E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos

E por vezes encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se envolam tantos anos.


David Mourão Ferreira

julho 30, 2007

Naquele tempo
Tu vinhas de noite à procura de amor
E eu fumando um cigarro
Esperava por ti
Quando chegavas
Abrias a porta sem me avisar
P'la noite fora
Ficavas abraçada a mim
Na cabana
Junto à praia
Entre as dunas e os canaviais
Só o vento
E o mar
E as gaivotas
Falam desse amor
Na cabana
Todos os anos
Eu volto em agosto ao mesmo lugar
Já uma hera
Cobriu a parede do quarto
Dava dez anos
De vida para te ver voltar
Posso estar farto
De tudo mas nunca me afasto
Da cabana
... ... ...


José Cid
ps- Nunca mais serei a mesma depois disto. Garanto-vos ; p. Um grande bem haja à Camara Municipal de Lagos por me permitir ver e ouvir live, mas mesmo live, esta lenda incontornável da música portuguesa. E as favas com chouriço? Até chorei..

julho 27, 2007



"Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar, apesar de todas as dificuldades e de todos os obstáculos.Uma só idade para nos encontrarmos com a vida, para vivermos apaixonadamente tudo com toda a intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Essa idade tão fugaz da nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa."
Fernando Pessoa

julho 26, 2007

Voltou. E ainda bem...

Encosta-te a mim,
Nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes vizinha de mim,
deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada, porque arrasei o que não quis
em nome da estrada,
onde só quero ser feliz enrosca-te a mim,
vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Jorge Palma
ps- vejam o video clip. Está fantástico...

julho 25, 2007



Parabéns a mim!!!!

julho 24, 2007

Para ti



Recebi o teu bilhete
Para ir ter ao jardim
A tua caixa de segredos
Queres abri-la para mim
E tu não vais fraquejar
Ninguém vai saber de nada
Juro não me vou gabar
A minha boca é sagrada
De estar mesmo atrás de ti
Ver-te da minha carteira
Sei de cor o teu cabelo
Sei o shampoo a que cheira
Já não como já não durmo
E eu caia se te minto
Haverá gente informada
Se é amor isto que sinto

Quero o meu primeiro beijo
Não quero ficar impune
E dizer-te cara a cara
Muito mais é o que nos une
Que aquilo que nos separa
Promete lá outro encontro
Foi tão fugaz que nem deu
Para ver como era o fogo
Que a tua boca prometeu
Pensava que a tua lingua
Sabia a flor do jasmim
Sabe a chiclete de mentol
E eu gosto dela assim


Rui Veloso

julho 15, 2007

Consider me gone...



There were rooms of forgiveness
In the house that we share
Bu the space has been emptied
Of whatever was there
There were cupboards of patience
There were shelf-loads of care
But whoever came calling
Found nobody there
After today, consider me gone
Roses have thorns and shining waters mud
And cancer lurks deep in the sweetest bud
Clouds and eclipses stain the moon and sun
And history reeks of the wrongs we have done
After today, consider me gone
I've spent too many years at war with myself
The doctor has told me it's no good for my health
To search for perfection is all very well
But to look for heaven is to live here in hell
After today, consider me gone

Sting

julho 03, 2007

If you forget me...


I want you to know one thing.


You know how this is:

if I look at the crystal moon,

at the red branch of the slow autumn at my window,

if I touch near the fire the impalpable ash

or the wrinkled body of the log,

everything carries me to you,

as if everything that exists, aromas, light, metals,

were little boats that sail toward those isles of yours that wait for me.

Well, now, if little by little

you stop loving me I shall stop loving you little by little.

If suddenly you forget me do not look for me,

for I shall already have forgotten you.

If you think it long and mad,

the wind of banners that passes through my life,

and you decide to leave me at the shore of the heart where I have roots,

remember that on that day,

at that hour,

I shall lift my arms

and my roots will set off to seek another land.

But if each day, each hour,

you feel that you are destined for me with implacable sweetness,

if each day a flower climbs up to your lips to seek me,

ah my love, ah my own,

in me all that fire is repeated,

in me nothing is extinguished or forgotten,

my love feeds on your love, beloved,

and as long as you live

it will be in your arms

without leaving mine.
Pablo Neruda
Ps- Bigada Joaninha ; p

julho 02, 2007

Recordar a genialidade..

Já não sou quem era
Meus sonhos não são iguais
Já não sou quem era
A hora é sincera
E eu sinto que me estou a agitar


Já não fico à espera
Já não fico à espera mais
Já não fico à espera
De ver acender
Essa luz que me quer ofuscar


Já vejo com os meus olhos
Já vejo sem me deslumbrar
Já vejo as limitações
Já vejo com os meus olhos
Já vejo sem enganar


Perdi as ilusões
Conheço as limitações
Já não sou quem era
Meus sonhos não são iguais
Já não sou quem era
A hora é sincera
E eu sinto que me estou a agitar


António Variações

junho 25, 2007

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz
caída
com paciência.
Pablo Neruda

junho 20, 2007

Three days spent staring at your photograph
Read your letter made me laugh
But there's a shadow on the path
'Till I know If your love is real
'Cause it's not as if a lot was said
Falling in and falling out of bed
But now the worlds turned on its head
'Till I knowIf your love is real
Spent a long time now persuading myself
That I don't need no one
Nobody else
That I'd felt all there was to feel
I'm in a daydream now
I'm out to lunch
And should it come down to the crunch
I'm wide open for that sucker punch
'Till I knowIf your love is real
'Till I knowIf your love is real
Spent a long time now persuading myself
That I don't need no one
Nobody else
And who I was,
I could conceal
I know if I should live one hundred years
I'd never see another face like yours
On stranger seas or brighter shores
'Cause I know
That my love is real

David Gray

junho 18, 2007

"Quando se é feliz muito novo, a única obsessão que se tem é aguentar a coisa.Vive-se ansiosamente com a desconfiança, quase certeza da coisa piorar. O pior é que as pessoas que se habituaram a serem felizes não sabem sofrer. Sofrem o triplo de quem já sofreu. É injusto mas é assim. No amor é igual. Vive-se à espera dele e, quando finalmente se alcança, vive-se com medo de perdê-lo.E depois de perdê-lo, já não há mais nada para esperar. Continuar é como morrer.As pessoas haviam de encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela."


Miguel Esteves Cardoso

junho 17, 2007

"Dois amigos meus separaram-se. O amor tinha-se acabado lá em casa. Ficaram amigos e sem ponta de rancor. Apenas decidiram seguir vidas diferentes sem ter de dormir um com o outro. Ele tem uma namorada e ela também se apaixonou, mas nunca contaram um ao outro. Ou seja, viveram juntos dez anos, partilharam cólicas, dores, entusiasmos, um nascimento (!), mas na hora de cada um ir à sua vida não ficou nada para dizer, nem a vontade de partilhar a vida que se segue. Partiu dele esta indiferença e ela apanhou a mesma boleia. Sabem por amigos que ambos têm agora outras relações, mas nunca ousaram tocar no assunto quando falam ao telefone sobre o filho que têm juntos. O que terá feito com que ele nunca lhe tivesse contado que está apaixonado? O facto de ela conhecer a mulher em questão? Talvez a isto se chame cobardia. Ou talvez seja só desinteresse. É um arrumar de contas sem puxar muito pela cabeça. É como mandar cem sms no Natal mesmo que lá pelo meio esteja a ex-mulher...
Por mais anos que viva, vou continuar sem compreender como é que duas pessoas que se amaram não têm depois a coragem de dizer coisas tão simples como:"Estou apaixonado e queria que soubesses antes de todos", ou "apaixonei-me outra vez e estou muito feliz." Em vez disso, escudam-se num silêncio, e esse sim, pode fazer esquecer o que de bom se viveu durante anos.
Não gosto muito de generalizar, por poder ser injusta com as excepções (os excepcionais?), mas nisto de abrir o coração e falar sem medos, os homens são muito piores do que as mulheres. Os homens vieram com este defeito de fabrico: a intimidade é um fardo. Partilhá-la é aterrador. Partilhá-la com a ex-mulher que já não é preciso seduzir para ter sexo, é ainda pior. Por isso, toca a viver para a frente e esquecer o passado. Se ela souber por outros, tanto faz. Se os outros meterem a pata na poça porque acabaram de contar à amiga que o ex-marido dela anda com a amiga deles, paciência. Ela que se desenrasque.
O que eles não sabem - talvez o defeito de fabrico não permita saber atempadamente - é que normalmente as coisas tendem a repetir-se. O mal, como o bem, é-nos sempre devolvido. E a ironia não se compadece com os momentos mais felizes da nossa vida."


In " O sexo e a Cidália"

junho 11, 2007

"Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso."


Eugénio de Andrade

junho 10, 2007

"Ao perder-te perdemos tu e eu. Eu, porque eras o que eu mais amava e tu, porque eu era quem mais te amava. Mas de nós dois, és tu quem mais perde, porque eu poderei amar outros como te amava a ti, mas a ti, não te hão-de amar como eu te amei."
Ernesto Cardenal

junho 06, 2007



Leio o meu destino na palma da tua mão.

junho 04, 2007

Não morro
de
saudades
tuas.
Vivo
de
saudades
tuas.
As saudades
minhas e tuas
dão
saúde.
Não desejo
a morte
Desejo
a vida.
Adilia Lopes

junho 03, 2007

o teu cabelo chove nas minhas mãos. e não vens ainda sobre a terra. sabes a tempo imóvel e rios sustenidos. dizes a paisagem como os anjos. as palavras escorrem da boca uma das outras. e eu escrevo a tarde que não cai. inscrevo na morte a nossa eternidade. espero à noite ser uma mulher por dentro de um homem. um pássaro ancorado na aorta de deus. que o nervo da morte repugna.
Alice Campos